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Com a COP30, em Belém, cresce a aposta em infraestruturas urbanas que se inspiram na natureza para enfrentar as mudanças climáticas e melhorar a qualidade de vida. Conheça o projeto de Ramilândia.

A primeira conferência do clima da ONU realizada na Amazônia coloca em evidência o papel da natureza como aliada na construção de cidades mais resilientes e na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE). As Soluções Baseadas na Natureza (SbN) estão entre os temas que devem atravessar os debates da COP30, que começa nesta segunda-feira (10), em Belém (Pará).

Os dois primeiros dias da conferência serão dedicados a Adaptação, Cidades e Infraestrutura, temas diretamente ligados a Água, Resíduos, Governos Locais, Bioeconomia, Economia Circular, Ciência, Tecnologia e Inteligência Artificial. A conexão entre eles revela o desafio central: como reduzir o impacto urbano sobre os ecossistemas e, ao mesmo tempo, garantir qualidade de vida e inclusão social.

Com a projeção da ONU-Habitat de que 68% da população mundial viverá em cidades até 2050, cresce a urgência por soluções que tornem a infraestrutura urbana mais sustentável e acessível. Questões como saneamento, disponibilidade de água potável e gestão de resíduos são parte desse esforço, mas o desafio vai além. O avanço do aquecimento global já deixou evidente que as cidades precisam se adaptar a um clima instável e a eventos extremos cada vez mais frequentes.

Nesse contexto, as Soluções Baseadas na Natureza (SbNs) ganham força. Inspiradas em processos ecológicos, elas oferecem respostas simultâneas a problemas urbanos, ambientais e sociais.

Ramilândia (PR)
A partir do ano que vem, os 5 mil habitantes de Ramilândia (PR), terão, pela primeira vez, uma solução baseada na natureza. A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) está desenvolvendo, em parceria com a Itaipu Binacional, a Itaipu Parquetec, e a tecnologia da francesa Phytorestore, sua primeira Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) baseada na tecnologia de jardins filtrantes, uma SbN.

O jardim filtrante funciona como um filtro orgânico-biológico, que trata efluentes por meio de microorganismos nas raízes de plantas aquáticas, decompondo os poluentes de forma natural, sem nenhuma adição de produtos químicos. Conseguem assim, remover sólidos, matéria orgânica, patógenos e nutrientes como nitrogênio e fósforo presentes no esgoto.

Cristiane Schwanka, CEO da Phytorestore Brasil, explicou ao Um Só Planeta que os jardins filtrantes, base das soluções da empresa francesa, reproduzem processos naturais de depuração da água com tecnologia avançada. “É uma bioaceleradora — o que fazemos é pegar a natureza e acelerar o processo. Todo o tratamento ocorre na zona das raízes das plantas, com bactérias que decompõem a matéria orgânica de forma natural, sem uso de produtos químicos”, diz.

Em um projeto como o de Ramilândia, o sistema combina tanques de decantação, filtros de areia e zonas alagadas plantadas com espécies nativas, capazes de remover sólidos, matéria orgânica e nutrientes como nitrogênio e fósforo. Segundo a executiva, o sistema de Jardins Filtrantes implantados na cidade paranaense segue os padrões mais rigorosos do mercado, especialmente no controle do fósforo — elemento comum em detergentes. “O nível de fósforo estabelecido para lançamento pelo órgão ambiental estadual está entre os mais baixos do país para o setor de saneamento”, destaca.

Para Cristiane, o modelo é um exemplo de como a tecnologia pode unir eficiência ambiental, redução de custos e valorização paisagística, transformando o tratamento de esgoto em uma solução integrada para a cidade e para a comunidade.“Essas estações não têm odor, não atraem vetores e ainda oferecem valor paisagístico. Em muitos casos, o espaço se transforma em uma área de convivência e educação socioambiental, mostrando à comunidade como a natureza pode regenerar o ambiente urbano”, lembra.

Outro benefício é o baixo consumo de energia, uma vez que funcionam por gravidade e podem operar até 30 anos com manutenção mínima. “É uma quebra de paradigma: saneamento eficiente, acessível e com retorno do investimento em poucos anos — tudo isso regenerando o meio ambiente”, conclui.

O projeto de Ramilândia inclui ainda uma usina fotovoltaica que garantirá a autossuficiência energética da operação. O processo de tratamento contará ainda com uma automação, facilitando sua operação e reduzindo ainda mais os custos operacionais.

Com área aproximada de 3 mil metros quadrados, o sistema será integrado a processos complementares de saneamento já existentes na cidade. Sua capacidade será de tratar até 432 metros cúbicos de esgoto por dia. A obra tem investimento total de pouco mais de R$ 12 milhões — sendo R$ 5,4 milhões destinados à construção da rede coletora e das estações elevatórias, e R$ 6,8 milhões para a unidade de tratamento. A entrada em operação está prevista para o início de 2026. Ao todo, são 13,5 quilômetros de extensão, beneficiando cerca de 630 imóveis.

A tecnologia, originalmente francesa, foi adaptada às condições locais. “Tropicalizamos o sistema para os diferentes biomas e climas do país. Trabalhamos apenas com espécies nativas, selecionadas conforme insolação, umidade e tipo de solo. Assim garantimos eficiência e equilíbrio ambiental, sem risco de introdução de espécies exóticas”, explica a executiva da Phytorestore Brasil.

Para Cristiane, a adoção de soluções baseadas na natureza representa uma virada estrutural no saneamento do país. “Não é uma opção, é a solução para o saneamento brasileiro. As SbNs são o caminho para universalizar o saneamento com menor custo e maior eficiência”, afirma.

Considerando que apenas 64,1% da população urbana conta com o serviço de tratamento de esgoto, segundo dados do Censo 2022, a solução pode ser uma alternativa aplicada de imediato em várias localidades. O Brasil estabeleceu como meta universalizar o acesso ao esgotamento sanitário para 90% dos brasileiros até 2033.

Fonte: Um só planeta