Skip to main content

Os Jardins Filtrantes® da Phytorestore Brasil serão parte essencial do projeto

Em Morretes (PR), empreendimento projetado pela Montipê transforma soluções de saneamento, implantação, paisagismo e iluminação em parte da arquitetura e da relação do hóspede com a Mata Atlântica. Há projetos em que sustentabilidade aparece como uma camada acrescentada depois que a arquitetura já está definida. No Helicônia Hotel Design, atualmente em construção, a proposta segue o caminho inverso: decisões sobre implantação, água, iluminação, vegetação e infraestrutura começaram a moldar o próprio desenho do hotel.

Essa foi uma das questões que mais chamaram minha atenção durante a conversa com os arquitetos Cristian Santus e José Mendes Júnior, sócios-fundadores da Montipê Arquitetura + Design + Rentabilidade, e com Cristiane Schwanka, CEO da Phytorestore Brasil.

Com inauguração prevista para junho de 2027, o empreendimento está sendo construído na região do Marumbi, em uma propriedade de 180 mil metros quadrados (m²) próxima a importantes unidades de conservação da Mata Atlântica. A primeira fase ocupará menos de 3% dessa área e terá 30 bangalôs privativos, spa, estruturas de lazer e gastronomia. O que chama atenção, porém, é a maneira como arquitetura e infraestrutura procuram estabelecer uma relação com o território.

Uma planta como ponto de partida

Imagens atuais da obra Helicônia Hotel Design

Santus e Júnior contaram que, após uma tempestade de verão na propriedade, encontraram uma Heliconia rostrata caída no terreno. A disposição de suas folhas e do caule acabou oferecendo uma referência para a organização do projeto.

As folhas inspiraram a geometria dos bangalôs. O caule, por sua vez, ajudou a orientar o desenho das passarelas que conectam as edificações. A referência botânica ajudou, assim, a construir a própria lógica espacial do empreendimento.

Essa relação também levou a Montipê a buscar uma implantação que interferisse o mínimo possível na superfície existente.

Bangalôs e passarelas são elevados do solo e utilizam estrutura de madeira engenheirada. A decisão procura reduzir a compactação do terreno e a retirada da cobertura vegetal, além de permitir que pequenos animais continuem circulando por baixo das estruturas.

Tubulações e redes técnicas percorrem a parte inferior das passarelas suspensas. Para o hóspede, permanecem praticamente invisíveis; para o território, evita-se parte das intervenções que seriam necessárias para a passagem convencional dessas infraestruturas.

É um detalhe técnico importante, mas também uma boa síntese da proposta: fazer a arquitetura tocar o terreno de maneira diferente.

Jardins Filtrantes, em frente ao spa, viram paisagem

Área total do Helicônia Hotel Design

O Helicônia utilizará os Jardins Filtrantes®, tecnologia patenteada pela francesa Phytorestore, empresa presente no Brasil desde 2010 e especializada em soluções de fitorremediação.

Durante nossa conversa, Cristiane explicou que o sistema projetado para o hotel terá capacidade aproximada de 12 mil litros por dia, ocupando cerca de 270 m².

O processo combina tratamento preliminar para retenção de sólidos, filtros verticais, filtros horizontais e uma lagoa plantada. A depuração ocorre por meio da interação entre substratos, microrganismos e a zona radicular das plantas.

Segundo Cristiane, o sistema foi dimensionado para substituir a estação convencional de tratamento de esgoto do empreendimento, sem utilização de produtos químicos no processo biológico principal e sem a presença visual e os odores normalmente associados a uma infraestrutura tradicional de saneamento. A água tratada deverá ser reaproveitada na irrigação dos jardins do empreendimento.

Os Jardins Filtrantes serão implantados em frente ao spa, integrados ao paisagismo. Ou seja: uma infraestrutura destinada ao tratamento de efluentes passa a compor a paisagem contemplada pelo hóspede.

Por décadas, boa parte da infraestrutura ambiental dos hotéis foi projetada para desaparecer. Sistemas de tratamento, climatização, água e resíduos deveriam funcionar bem, mas permanecer fora de vista.

No Helicônia, parte dessa infraestrutura deixa de ser apenas técnica e passa também a assumir uma dimensão paisagística.

A própria helicônia entra no processo

Helicônia Hotel Design inspirado na heliconia rostrata

Existe ainda uma coincidência particularmente interessante entre arquitetura e engenharia ambiental. A Heliconia rostrata que inspirou o empreendimento está entre as espécies que podem participar de sistemas de fitorremediação desenvolvidos pela Phytorestore.

Assim, a planta que ajudou a definir a linguagem arquitetônica também pode participar biologicamente do tratamento da água.

A vegetação cria uma atmosfera tropical e aproxima o hóspede da natureza. Mas ela também desempenha uma função dentro da infraestrutura ambiental. A paisagem deixa de ser cenário e começa a trabalhar.

O desenho da noite também importa

Projeto valoriza entorno, sombras, sons da floresta e céu estrelado

No Helicônia, o projeto luminotécnico das passarelas procura concentrar a luz próxima ao piso e direcioná-la para o caminho percorrido pelos hóspedes.

A intenção é reduzir a dispersão luminosa para a mata, diminuir interferências sobre animais de hábitos noturnos e, ao mesmo tempo, preservar a percepção do céu.

Em ambientes urbanos, frequentemente iluminamos para transformar a noite em uma extensão do dia. Em um hotel cercado pela floresta, porém, é possível fazer o movimento contrário: permitir que a noite continue sendo noite.

Essa escolha pode alterar a própria experiência do hóspede. Menos luz difusa significa maior percepção do entorno, das sombras, dos sons da floresta e do céu estrelado. O projeto paisagístico conta ainda com a consultoria de Marlon Souza, gestor da coleção botânica do Sítio Roberto Burle Marx há mais de duas décadas.

Coberturas que recebem a floresta

O hotel se integra à floresta

As coberturas vegetadas foram pensadas para ajudar na retenção das chuvas e no conforto térmico das edificações. Ao mesmo tempo, folhas e matéria orgânica provenientes da própria floresta podem permanecer sobre essas superfícies e participar dos processos biológicos do sistema.

Mais uma vez, a arquitetura tenta evitar uma separação rígida entre edifício e ambiente.

A floresta se integra ao hotel — e o hotel procura se integrar a ela.

Um spa voltado à contemplação

Spa terá quatro saunas inspiradas nos elementos

O empreendimento contará com um spa de aproximadamente 560 m², com salas de massagem e banhos de imersão.

Uma de suas piscinas tem como referência a Lagoa Dourada, formação natural localizada no Parque Estadual de Vila Velha, também no Paraná. A proposta é trabalhar os efeitos da luz para produzir tonalidades douradas durante o dia e uma atmosfera âmbar à noite.

O spa terá ainda quatro saunas inspiradas nos elementos terra, água, ar e fogo.

Na área gastronômica, o Bar Vagalume foi concebido para explorar justamente aquele momento de transição entre final de tarde e noite — mais uma situação em que iluminação e percepção do ambiente natural participam do desenho da experiência.

O hotel também prevê restaurante, piscina outdoor com configuração semelhante a uma praia, piscina interna e acesso a aproximadamente 450 metros de margem de rio dentro da propriedade.

Sustentabilidade também passa pela obra

Sustentabilidade no dia a dia da obra

Durante a entrevista, Santus e Júnior chamaram atenção para uma dimensão menos visível da sustentabilidade: a forma como a construção se relaciona com a comunidade.

Segundo os arquitetos, praticamente toda a mão de obra utilizada nessa etapa foi contratada na região de Morretes. Compras relacionadas às refeições e à rotina da obra também procuram privilegiar pequenos estabelecimentos locais.

A equipe recebeu ainda orientações específicas sobre comportamento dentro de uma área ambientalmente sensível, incluindo descarte de resíduos e cuidados cotidianos durante a construção.

Um empreendimento sustentável não se resume à eficiência energética ou à quantidade de área verde preservada. Envolve também como se constrói, quem participa da construção, de onde vêm os recursos e quais relações econômicas o empreendimento estabelece com seu entorno.

Sustentabilidade como sistema

Sustentabilidade como uma decisão de design

O Helicônia Hotel Design ainda está em construção e, naturalmente, parte de seu desempenho ambiental somente poderá ser efetivamente avaliada quando o hotel entrar em operação.

É aí que indicadores como consumo de água por hóspede, volume efetivamente reutilizado, desempenho dos Jardins Filtrantes, consumo energético e evolução da biodiversidade do território poderão mostrar o resultado das decisões tomadas agora.

Esse case será especialmente importante porque a hotelaria começa a enfrentar uma mudança de expectativa. Já não basta afirmar que um empreendimento está integrado à natureza. Será cada vez mais necessário demonstrar como essa integração acontece e quais resultados produz.

Arquitetura, paisagismo, saneamento, iluminação e experiência do hóspede passam a participar de uma mesma conversa.

Aqui vejo uma das transformações mais promissoras para a hospitalidade em ambientes naturais: pensar a sustentabilidade como uma decisão de design, e não apenas como um conjunto de equipamentos adicionados ao projeto. Quando isso acontece, até uma estação de tratamento pode virar jardim.

Fonte: Hotelier News